Porque lembrar é preciso...

Porque lembrar é preciso...
"Partire è un pó morire", dice l’adagio, ma è meglio partire che morire, aggiunge Carrara. ("Partir é morrer um pouco", diz o adágio, mas é melhor partir do que morrer, retruca Carrara.)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Dia especial




O dia amanheceu agitado na casa dos Maiochi na fazenda Água Limpa. Luigi e Angela iam fazer compras na cidade. Os filhos sabiam que isso significava que além da possibilidade de uma roupa nova ainda se podia tirar fotografia. Sim, é isso mesmo... as Casas Pernambucanas, que naquele tempo ainda ficava na Assis quase esquina da Francisco Salles, tinha essa promoção: por um certo valor comprado ganhava-se uma foto (posada, daquelas de estúdio, bem bacanas). A tia Antonia me contou que se o nono fizesse uma compra maior eles ganhavam até três fotos. Era ou não era um dia especial? Visitar a cidade, ir nas Pernambucanas, tirar fotografia e, quem sabe, comer alguma coisa diferente... muita sorte num dia só. Quanta alegria em acontecimentos tão singelos...
E naquele dia de 1940, as contempladas com o brinde fotográfico foram as irmãs Antonia (15 anos), Maria (24 anos) e Palmira (17 anos). O resultado foi uma linda imagem das moças da fazenda de corações alvoroçados. Hoje, 60 anos depois daquela tarde especial, é o meu coração que se enternece ao olhar a foto e perceber que a felicidade pode morar em episódios tão modestos.

gioco delle boche


Lá, em 1880, os italianos "começaram a invadir" o Brasil. Junto com eles vieram inúmeras tradições culturais, em especial o jogo de bocha (gioco delle bocce), que era praticado durante a viagem, nos navios, quando era possível. Na zona rural, onde minha família se estabeleceu, era comum encontrar locais destinados a essa diversão. Meu tio Afonso Maiochi me deu duas fotos que ilustram bem como os imigrantes gostavam desse esporte. E ele me contou que durante uns cinco anos diversas famílias italianas e espanholas (Maiochi, Vasques, Toron, Galha, Reche), entre outras, utilizaram o campo de bocha do sítio Campo Redondo, de propriedade de Joaquim Vasques, perto da fazenda Santa Alina. As tardes de domingo eram reservadas para as disputas de bocha e os homens se divertiam, esquecendo a lida dura da semana nas plantações de café. O campo, cuidado por José Pacetti, era o único da redondeza e atraía também as moças e os sanfoneiros, fazendo a tarde ficar mais alegre com música e dança (e com os olhares compridos trocados entre os futuros pretendentes). O tio, olhando a foto com saudade, disse que uma bela paineira sombreava parte do campo e refrescava os ânimos durante as competições mais acirradas. Eu fico imaginando o tanto que eles discutiam. Italianos e espanhóis juntos devia dar uma bela confusão de palavrões e insultos. Nada que não se resolvesse com um aperto de mão no fim da tarde de disputas, mas que um achava que jogava melhor que o outro... ah, isso com certeza. Faz parte de suas almas a personalidade forte herdada de seus antepassados conquistadores.
Nesta foto de 1950 o tio falou que reconhece José Saqueli, José Pacetti, Geninho Reche, ele mesmo, João Maiochi (tio Joanin), Salvador Toron, João Piva, João Moreno e Dito Lopes.

terça-feira, 25 de maio de 2010

jersôô...


“Jersôô, conta uma piada pra gente?”
“Jersôô, passeia com a gente na lambreta?”
“Jersôô, vamo sentá na mureta da casa da tia Tonha pra conversar?”
E assim iam se repetindo os pedidos e aquele primo grandão, pacientemente, satisfazia todos. Essas lembranças são de quando eu tinha uns 12-13 anos de idade... ele, mais de 20. Parecia um moleque brincando com os primos menores. E como havia primos, de todos os tamanhos e idades, cada um mais levado que o outro. A travessa Pedro de Castro Souza (nunca esqueci esse nome) ficava pequena pra tanta criança. Espaço lúdico de minha infância. Hoje já não tem mais graça... a tia Antonia mudou de lá, tia Maria foi conferir se no céu podia jogar baralho... os primos cresceram, mudaram, casaram. O Jérson foi andar de lambreta em outras paragens... nos deixou órfãos de seu afeto. Que eu me lembre, ele foi um dos poucos adultos da família que gostava da companhia das crianças, que perdia tempo nos dando atenção. Sua presença contribuiu para que eu crescesse entendendo o valor de estar junto.
“Jersôô, conserta meu radinho?”
“Conserto.”
“Mas Jerson, o dial ficou errado... quando eu giro pra esquerda vai pra direita, quando eu giro pra direita vai pra esquerda...”
“E não ficou mais legal assim? Ninguém tem um rádio desse jeito. E nem vou cobrar a mais por isso, tá?”
Não acreditam? O rádio ainda está comigo...

sábado, 22 de maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A família que mudou de sobrenome ou como viramos Nicola



...C'era una volta...

Era uma vez uma família de imigrantes italianos que desembarcou no porto de Santos em 24 de março de 1887. Chamavam-se Luigi (chefe), Madalena (esposa), Rosa (filha), Gioachino (filho) e Ângelo (filho). O sobrenome? De Ponti.
Depois da estadia na hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, seguiram para Casa Branca-SP, onde deram início à dura batalha para a subsistência num lugar tão diferente do de origem. Instalaram-se em uma das fazendas da região e tentaram se adaptar à nova realidade. Assim como outros “stranieri”, eles casaram, povoaram, festejaram, batizaram as crianças, morreram...
Mas essa família tem uma peculiaridade: seus integrantes mudaram o sobrenome após a chegada ao Brasil... todos eles.
Em 1892 registraram o primeiro filho brasileiro: Ernesto de Ponti.
Em 1900 casaram a filha Rosa de Ponti (com Vicente Passoni).
Em 1905... transformaram-se em Nicola.
E assim, no meio desse mistério “nominal“, nascemos nós, os Nicola... do Sebastião, da Idalina, do Luiz, da Nega, do Natal, do Maurílio, da Maria, da Olga, da Lourdes, do Antonio........
Meu bisavô Luigi nasceu e chegou ao Brasil de Ponti e morreu Luiz da Ponte Nicola, conforme registro no cemitério de Poços.
Meu avô Ernesto nasceu de Ponti, casou e morreu Nicola.
A minha tia-avó Rosa nasceu de Ponti, casou de Ponti, enviuvou e morreu Nicola.
Meu tio-avô João (da Ponte) nasceu provavelmente Gioachino de Ponti, casou e morreu Nicola.
E meu tio-avô Angelo nós nem sequer soubemos quem foi, a que veio, quando morreu ou o que fez.
É isso.... Nossa história, que tem muitos causos, até de quase-homicídio e suicídio (mas muitas alegrias também), se resume nesse básico-complicado... nascemos assim e viramos assados. Ficamos desnicolados. Mas, eu sou brasileira, não desisto nunca... ainda vou descobrir o que houve.
Aguardem um próximo capítulo......
PS: coloquei uma foto do tio Zé Nicola porque não tenho nenhuma dos avós e bisavós De Ponti-Nicola, nem encontrei parente que tivesse. Então, como ele é o mais velho...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Família Passoni e as desventuras no vapor Poitou (texto de Francisco Braido)


Embarcados em Gênova, meus antepassados Antonio, Pasquale e Paolo Passoni chegaram ao Brasil em 20 de fevereiro de 1888. Provenientes dos arredores de Milano, a composição familiar desembarcou em Santos com 24 membros, depois de uma viagem de cerca de 20 dias no vapor Poitou.
Com certeza, todos sonhavam com uma “Mérica” linda e cheia de oportunidades. Mal sabiam que as dificuldades estavam apenas começando e a primeira delas foi a viagem na “aconchegante e luxuosa” embarcação. Quem descreveu o percurso sobre o mesmo vapor francês foi um integrante da família Pozzebon.
Transcrevo um fragmento do texto: “Os passageiros engoliam os maus tratos e calavam. O alimento insuficiente e mal conservado era mais do que repugnante: aquele pó de café abominável, a água turva. A carne (à época, não existiam frigoríficos) em grande parte deteriorada e fedorenta. A água intragável era conservada num caixão de chumbo, de modo que estava impregnada com aquele metal e não se a tomava a copos, mas com canudinhos de chumbo. Coisa nauseabunda! Desse modo, a maioria, para não sugar as imundícies existentes no recipiente, colocava o lenço para servir de filtro. Se não fosse verdade, pareceria impossível. Muita sede sofria os inúmeros emigrantes por se recusarem a sorver aquele caldo asqueroso”.
O grupo de 24 pessoas da família Passoni certamente esteve nessa difícil situação. E tudo acrescido da incerteza sobre o futuro na nova terra e da saudade dos que deixavam. Mas desistência não fazia parte do vocabulário daqueles imigrantes fortes e trabalhadores...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Luigi e Angela



Os dois vieram da Itália. Ele chegou ao Brasil com menos de dois anos. Ela tinha três. Ele nasceu em Calvatone, província de Cremona, em 1894. Seus pais Amilcare e Annita atravessaram o oceano no navio Alacritá e aportaram em Santos em 1896. Ela nasceu em Sacile, província de Pordenone, em 1891. Seu pais Luigi e Santa trouxeram a família no navio Washington e desembarcaram em 1897.
Ainda crianças, os dois foram levados para a fazenda Aleixo, zona rural de Poços de Caldas, onde as famílias se estabeleceram como lavradores.
Cresceram em meio aos outros tantos italianos, ouvindo os dialetos e a linguagem mineira, numa mistura de palavras e sentidos. Até que um dia Mário Luigi Maiocchi resolveu que ia se casar com Angela Da Re, pois afinal estava na hora de constituir família, e ela era tão bonita...! Era 1915. Deixaram plantados por aqui, além dos incontáveis pés de café, 11 filhos (seis meninos e cinco meninas). Suas histórias são simples como as dos casais de antigamente: a união seria para o sempre da vida. Tudo o que prometeram ao sacerdote no dia do casamento foi cumprido à risca - fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença (fedele sempre, nella gioia e nel dolore, nella salute e nella malattia).

E assim aconteceu.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Cruzando o Atlântico (texto de Francisco Braido)

"Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arrivá" (canção do folclore italiano)

O vapor San Gottardo foi construído por G. Ansaldo & Co, Sampierdarena em 1884 para Dufour & Bruzzo, Gênova. Ele tinha 2.532 toneladas, dois mastros e fazia uma velocidade de 10 nós. Havia acomodação para 30 passageiros de 1ª classe e 1.290 passageiros de 3ª classe. Lançado em maio de 1884, deixou Gênova rumo ao Brasil e à Argentina no mesmo mês. Entre os numerosos ocupantes da 3ª classe estavam integrantes da família Braido, que desembarcaram nos portos de Santos e Rio de Janeiro.
Uma viagem de navio naquela época era uma empreitada dura. As condições dos navios eram precárias, o calor, o excesso de passageiros e as condições de higiene favoreciam o aumento de doenças. Aos emigrantes era destinada a cuccetta - espaço muito estreito - uma espécie de dormitório coletivo. Nele havia beliches com colchões de crina, travesseiros e cobertores de lã, que muitas vezes tinha parasitas e piolhos. Mas nem tudo era sofrimento. Festas e jogos animavam os passageiros e os ajudavam a suportar as dificuldades. Assim, depois de 20 a 30 dias de viagem, chegavam ao Brasil, onde se iniciava outra viagem, dessa vez rumo ao futuro incerto das cidades e fazendas.

"Benditas sejam as mãos que tecem os fios da vida"


Essas linhas são de um poema de Alencar Medeiros. Penso que as palavras combinam bem com as mãos da minha bisavó Sophia Passoni. Não, eu nunca vi as mãos da minha bisavó, a não ser em fotos. Mas eu sei que elas deslizaram inúmeras vezes nesta máquina de costura, indo e voltando na dança do coser, sua cabeça (já branca talvez) se debruçando sobre os tecidos que depois vestiriam sua família.
Segundo a história, a máquina de costura começou a ser comercializada a partir de 1830 na França. Minha bisavó Sophia provavelmente nunca soube disso, mas entendia muito bem de pedalar a sua Dietrich Vesta, de fabricação alemã, da empresa L.O.Dietrich & Co. Fundada em 1871, produziu máquinas de costura até a Segunda Guerra Mundial, quando foi transformada em fábrica de armas. A bisa vestia a família costurando nesta relíquia, que, felizmente, conseguiu ser resgatada e hoje mora na casa da Dulce.
Será que alguém tem uma peça costurada por ela??

pai





José... um nome simples mas que conteve um homem tão grande.

Meu pai foi uma das inspirações para que eu começasse a me interessar pelas lembranças de família. Dentre tantas recordações de infância uma delas é ele brincando comigo com palavras em italiano. Aí contava que era assim ou assado que seu pai dizia certas coisas, que sua mãe rezava na língua pátria todos os dias, em especial no mês de maio, quando então todos da família se reuniam à noite pra saudar a Mãe do céu... Ave Maria piena di grazia... e ia me contando, falava da nona com tanto carinho.
Pois assim todas as palavras desse blog serão em sua memória, que não deixarei que se apague...



Sua bênção, pai!!