Porque lembrar é preciso...

Porque lembrar é preciso...
"Partire è un pó morire", dice l’adagio, ma è meglio partire che morire, aggiunge Carrara. ("Partir é morrer um pouco", diz o adágio, mas é melhor partir do que morrer, retruca Carrara.)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

sacerdote da vida


Ele tinha a chave da pequena igreja de São José da fazenda Santo Aleixo. Cuidava dos paramentos e objetos litúrgicos com a mesma devoção que um sacerdote o faria. Sua missão mais importante no pequeno povoado de imigrantes era celebrar os ofícios fúnebres. “Libera me Domine, de morte aeterna”, cantava com sua voz forte, encerrando a triste tarefa de ajudar no sepultamento de alguém da colônia. Luigi Da Re chegou ao Brasil em 26 de novembro de 1897 com a esposa Santa Zanetti, a mãe Angela Coure e as filhas Marina, Angela, Giovanna, Elvira e Maria. Veio de Udine, na região vêneta, e tinha 38 anos ao desembarcar. Agricultor, seu destino não poderia ser outro que uma das tantas fazendas que necessitavam de mão-de-obra para ainda substituir os escravos. Esse meu bisavô paterno, magro e não muito alto, de alma e gestos piedosos, plantou aqui a sua descendência. Viveu sua vida longe do lugar onde nasceu, manteve a sobrevivência da família, gerou outros filhos, viu milhares de pés de café serem transmutados de semente a fruto seco no terreiro. E, em meio à dura lida da agricultura, foi generoso com as pessoas até em seus derradeiros momentos nesta existência. Amparou, com suas orações e cantos, a alma que buscava a luz e contribuiu para diminuir a dor de quem ainda ficava. Luigi, o nono piadera, é o nosso exemplo mais claro de compaixão e doação. Desejo muito que alguém tenha cantado e rezado no dia de sua morte, mas tenho certeza que ele encontrou, lá nos campos do céu, todos aqueles a quem ajudou na travessia.

3 comentários:

  1. Estava lendo teu blog, imaginando como seria essa tua gente. Me encantei com o velho Luigi e sua importante função junto a igreja e as cerimônias fúnebres. Se bobear vi as três donzelas aprumadas pra foto, ajeitando cabelos e vestidos. Ri com o Jersôô, que fiquei com vontade de conhecer, mas a quem jamais confiaria à tarefa de arrumar um rádio meu (caso eu tivesse algum). Passear no teu blog é como ler um livro de contos, daqueles que crianças gostam, com textos curtos que mexem com a gente e ilustração pra facilitar a visualização das cenas.
    A melhor parte é que sei como ele é feito. Um conta, outro reconta e assim vai se formando a história. Não se sabe nunca ao certo quanto de imaginação se acrescentou ou quanto de verdade se perdeu no esquecimento. Para muitos, isso não importa. Entretanto, quando retalhos de vidas passadas vão parar nas mãos de costureiras habilidosas, o passado salta no tempo dando sentido ao presente e esperança ao futuro. Você, Delminha, é uma dessas costureiras. Tanto fuça e refuça em retalhos perdidos no baú dos anos que aquilo, que parecia desbotado, retoma a nuance original. Aos poucos, partes daquele tecido vindo da Itália vão se encaixando. E a linha usada para costurar lembranças tem mesmo que ser essa que você descobriu. Uma linha especial com tramas que unem saudade, respeito e poesia. Tua colcha está cada vez mais linda! Teu livro cada vez mais especial!
    Beijossssssssssssss

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  2. Delma voce falou muito bem desse nosso bisa , a mamãe conta que ele realmente era um santo.
    Muito bom voce escancarar assim esta santidade.

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  3. Olá, que bom que encontrei esse blog. Santa Zanetti era tia da minha avó Rosa Camilotti, filha de Pietro Camilotti e Elizabetta Zanette. Vieram de Sacile, por volta de 1907 e 1909. Em abril visitei Sacile e tirei várias fotos no cemitério. Se quiser conversar, me adiciona no face, lucilene Biazotti de Ourinhos.

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