Porque lembrar é preciso...

Porque lembrar é preciso...
"Partire è un pó morire", dice l’adagio, ma è meglio partire che morire, aggiunge Carrara. ("Partir é morrer um pouco", diz o adágio, mas é melhor partir do que morrer, retruca Carrara.)

domingo, 10 de outubro de 2010

O vestido do caminho

O que pode ser quase tão importante para uma moça quanto um vestido de noiva? Para as jovens que moravam nas fazendas outra peça de roupa era pensada e produzida com igual carinho para o grande dia: o vestido do caminho.
O ritual do dia do casamento na zona rural, no tempo jovem de minha mãe e tias, era muito parecido com o das noivas da cidade. Exceto que as moças das fazendas precisavam fazer um longo caminho até a igreja. O transporte costumava ser cavalo, charrete, caminhão, às vezes até a pé. Na estrada, muita poeira ou barro. Não dava pra colocar o vestido de noiva em casa. Para transpor o último trecho que separava a menina-moça da mulher-casada era usado o ‘vestido do caminho’.
Eu imagino as conversas entre a noiva e as primas e amigas, enquanto capinavam as ruas de café ou mesmo no longo trecho para levar o almoço aos que tinham madrugado na lavoura. O tecido, a cor, os detalhes, botões, bordados... um pouco de ternura no meio do trabalho e da difícil lida da roça.
Minha mãe me disse que o vestido dela era cor-de-rosa com pregas, de seda. Quem costurou foi Inês Mapelli, que morava no Campestrinho. Soutien e calcinha, bordados, eram feitos em casa. Depois, a roupa foi usada para ir a algum passeio ou ocasião especial.
Tia Antonia lembrou que o dela, também cor-de-rosa, foi feito pela sua tia Henriqueta Da Ré. O destino dele foram as missas de domingo.
Seda, tafetá, véu e grinalda, flores de laranjeira (acreditem, eram de verdade, colhidas no pomar quando a estação permitia), sapato novo, alianças... delicadezas de moças, sonhos de meninas, momentos cor-de-rosa em meio às cruezas da existência. E ainda, supremo luxo, com direito a meia de seda fina.
Ao colocar o vestido do caminho, a moça sabia que sua vida estava mudando. A roupa nova era o início de outras responsabilidades, tarefas e comprometimentos. O espelho refletia pela última vez a menina, que voltaria mulher, ainda naquele mesmo dia, para a casa do marido.

O terno do noivo, mais corriqueiro, era comprado na cidade. E as alianças, símbolo do encontro dos destinos daqueles dois jovens, iam, corredor de igreja adentro, aninhadas numa rosa de papel forrada com tecido.
Simples como eles, lavradores. Bonito como os dois corações nervosos com a cerimônia de casamento. Profundo, como a terra que aravam.

sábado, 4 de setembro de 2010

A partilha


Alfredo e Thereza e a casa deles na Santa Alina

Meu tio-avô Alfredo Passoni, diferente de quase todos da família, casou-se com alguém com outro sobrenome. A morena Thereza Zaghi, de São Sebastião da Grama, chamou sua atenção e ele resolveu fugir da tradição de desposar primas. Era 1926. Ele tinha 22 anos e ela 19. Casaram-se na antiga matriz de Poços e foram morar na fazenda Santa Alina. A vida dos dois, assim como a de todos na zona rural, era de muito trabalho e pequenas alegrias. Alfredo saía bem cedo pra se juntar aos irmãos e cuidar da plantação de café. Thereza fazia as tarefas da casa, da horta, dos pequenos animais e de um jardim talvez. E, claro, cuidava das crianças, que nasciam sempre. Tiveram nove filhos. Depois de 19 anos juntos, uma doença chamada paratifo separou Alfredo de Thereza. Ele morreu em 1945, na fazenda, com apenas 42 anos. Minha mãe diz se lembrar dele, acamado, seu corpo grande sofrendo com dores. Ela conta que ele era um homem bom, que cuidava bem da família.
A Thereza restaram a dor, as lágrimas, a solidão e nove pares de olhos que buscavam entender o que acontecia. O que fazer para o sustento de todos?
Depois de muito pensar Thereza chegou à única, e dolorosa, decisão que poderia tomar: deixar os filhos com os cunhados e a sogra (minha bisavó Sophia). Ao menos ficariam resguardados e poderiam crescer em segurança.
E assim foi feito. Pelo que me contam a partilha da família Passoni-Zaghi ficou assim: Osmídia foi criada pelo meu tio-avô Isidoro, Maura pelo André Passoni, Iracema e Isaura pelo meu tio-avô Ambrósio Passoni, Isolina pela Leontina, Zeca pelo meu tio Luiz Nicola, Mané pelo meu tio-avô Paschoal Passoni, Benedito pelo meu avô Ernesto Nicola. Da filha Aurora não tenho conhecimento.
No assento de óbito de Alfredo consta que ele não deixava bens a inventariar. Mas tenho certeza que Thereza não pensava assim. Os bens mais preciosos que os dois podiam ter precisaram ser "partilhados". Quem os recebeu herdou um "pedaço" do ente querido que tinha partido. Quem os entregou morreu um pouco a cada despedida. Nem gosto de imaginar o último olhar da mãe para o filho que deixava. Portas se abriam em acolhida e seu coração se trancava na tristeza.
Eu não tenho os detalhes desta história, sempre a ouvi da maneira que descrevi. Ninguém me contou como foi para aquela mulher perder a família inteira num piscar de olhos. Quantas noites passou sem dormir naquela cama vazia de Alfredo e cheia de aflições. Corajosa tia Thereza! Ela foi embora da fazenda, parece que para São Paulo, junto com uma das filhas. Não se soube mais dela. Há uns dias o Chico me disse que ela tinha falecido em Vinhedo em 1981. Longos 36 anos depois foi se encontrar com Alfredo. Finalmente pode descansar a cabeça em seu ombro se sentir reconfortada.

sábado, 28 de agosto de 2010

Ramoscelli intrecciati (ramos entrelaçados)


Eu inventei de brincar de árvore genealógica e comecei a montar uma num site que encontrei na net (www.myheritage.com.br/site-family-tree-99872073/familia-delma-maiochi). Achei que seria uma boa ideia colocar em ordem as datas e nomes que tinha espalhado em pequenos papéis enfiados na minha pasta "dos antigos"... poxa, e não é que tava dando certo!? Os galhos floresciam e as folhas ficavam suculentas de informações.

Foi então que comecei a reparar que tinha uma boa quantidade de nomes repetidos...

Pensei: putz, já fiz cáca, coloquei duas vezes a mesma pessoa em lugares diferentes. E dá-lhe conferência... mas estava tudo certo. Aí entendi que, obviamente, os casais tendiam a se repetir nos galhos familiares quando dois irmãos casavam-se com duas irmãs... até aí tudo bem. Mas, o fato ocorria com uma frequência estranha e resolvi checar melhor. Então, pasmem, descobri que meus familiares são mais "collegati" (conectados) que eu imaginava. O entrelaçamento entre os membros da mesma família é algo surpreendente. Chega a ser confuso o emaranhado de um mesmo sobrenome. Na certidão de casamento de minha bisavó Sophia apenas o tabelião não era Passoni. Quer dizer, isso porque eu não procurei mais profundamente, vai saber? Tenho a impressão que se um de nós precisar de transplante de medula (livra-nos desse mal) vai encontrar vários bons doadores debaixo do mesmo teto.

Vou lançar um desafio pra minha bióloga-de-plantão Elisa: que tal descobrir a semelhança de nossos tipos sanguineos? Ei, Elisa, dá até uma tese de mestrado!!!
Nesse esmiuçar de galhos ancestrais pude constatar como somos próximos (em sangue e certidões). Um verdadeiro ajuntamento, ousaria dizer que, com o perdão dos puristas, somos uma "etnia" não mais muito agrupada. Não tem como olhar para meus parentes sem enxergar a longa e espessa árvore que nos une.
E também isso me ajudou a entender a alegria de "pertencer". Não posso mais sentar no colo da bisa Sophia, nem abraçar o bisa Amilcare, muito menos vou poder dizer: como é bom ter seu sobrenome, nono Luiz. Mas, posso ainda desfrutar do colo da minha mãe, do beijo da tia Antonia, dos abraços dos meus inúmeros "pimos e pimas". Eles representam vivamente essa conexão com meus antepassados, fortes no sentimento de afinidade e de pertença. Fazemos parte um do outro, os bisnonos se encarregaram de dar início à construção de nossas identidades, encadeando os genes e, principalmente, os sobrenomes.


Confiram comigo o "cipó" que nos permitiu nascer. E ainda não cheguei nem na metade, porque o cérebro dá nó, acreditem!


Passoni - Sophia casou-se com seu primo Luiz. O filho Ambrósio casou-se com a prima Estela. A filha Maria casou-se com o primo Santo (irmão de Estela). A filha Roza casou-se com o primo André. Então, todos os cônjuges dos filhos, que já eram sobrinhos, tornaram-se genros e noras do casal Sophia e Luiz. Todos eles são meus tios-avós. Duas vezes!!

Nicola - A filha de Sophia e Luiz, Tereza Passoni, casou-se com Ernesto Nicola. Ernesto era irmão de João, que se casou com Diamanta Passoni, que era sobrinha de Sophia. Portanto, Diamanta tornou-se, além de prima, cunhada de Tereza. A Diamanta seria minha tia-avó e também uma prima de uns graus (se fosse etílico estaria bêbada).


Maiochi - Maria Maiochi, irmã de meu pai José, casou-se com Paschoal Passoni. Paschoal era tio de minha mãe Idalina. Maria, então, era ao mesmo tempo tia e cunhada de minha mãe. E a relação comigo? Hummm... tia duas vezes? três vezes? Deve ser por isso que gostava tanto dela...
Meu pai José Maiochi casou-se com minha mãe Idalina Nicola. O irmão dele, Roque, casou-se com a irmã de minha mãe, Lourdes. A irmã de meu pai, Antonia, casou-se com o irmão de minha mãe, Luiz. Dava troca de bebê na maternidade, não dava?

Capisci quello che digo?

domingo, 8 de agosto de 2010

...eu nasci no mês de agosto, mês da flor do ipê...



Agosto é mês de aniversários em minha família. E a abertura das comemorações, até onde eu saiba, começa com a Leila. Aquela que jogava água no bumbum do nono e levava choque no dedinho por causa do irmão. Ela nasceu num dia dos pais e realmente foi a alegria da casa. Chegava uma menina. Tia Lourdes tirou da memória o nome Leila (que em árabe significa negra como a noite) antes de olhar a brancura de leite que era sua filha. E ainda complementou com o religioso Fátima, em honra d'Aquela que a amparou no parto. Tio Roque deu o sobrenome e estava completa a criatura mais falante que eu conheci. A nona Angela não teve a oportunidade de colocar a Leila debaixo da cama, como fizera com o Zé, pois já tinha ido embora pro céu. Ela dizia que pôr o bebê debaixo da cama fazia ele ficar calmo na vida. Hummmm.... sei não! Nunca saberemos se ia dar certo com a minha elétrica prima. Inquietação é seu sinônimo, sempre falando, fazendo alguma coisa, se movimentando. E tudo acompanhado de sorrisos e bom humor, outra característica marcante da nossa "negra como a noite".
E, assim, há 45 anos ela enfeita a árvore genealógica de minha família. Sempre de pé em cima do "galho", falando e sorrindo pra deus-e-o-mundo.
Parabéns, Leila! Que a vida te seja sempre de oportunidades.
Ah, antes que eu me esqueça: quem ajudou o padre a jogar água na cabeça daquela menina que esperneava na hora do batismo foi o tio César e a tia Venilda.
E, Leila, o Drummond mandou um recado: "São mitos de calendário/tanto o ontem como o agora,/e o teu aniversário/é um nascer a toda hora."

Beijo embrulhado em abraço nos ventos e ipês de agosto.

Patriarchi (patriarcas)


Amilcare Maiochi, Luigi Da Re, Luigi Nicola, Antonio Passoni, Francesco Braido, Antonio Cancian... nossos primeiros pais, patriarcas de nossa grande família, essa árvore de galhos grossos e inúmeras folhas. Reverenciamos sua memória neste dia considerado o dos pais. Deles herdamos o sangue, os genes, a raça, a determinação de cruzar o oceano, a coragem de deixar as origens e construir nova vida num lugar estranho. Deles herdamos o suor na plantação, as mãos nodosas, a alegria e o cansaço da lida no fim de tarde.
Deles herdamos o cheiro da florada do café, a bênção da chuva e o calor do sol na arrebentação dos frutos, o choro do carro de boi, a aspereza da palha do milho, as grandes caminhadas entre as fazendas.
Com eles herdamos o direito de estar nesta terra, de constituir família, de dar continuidade a sua descendência. Esses nossos pais não são lembrados em monumentos, estátuas e, alguns, nem mesmo em fotos. Mas os guardamos em nossa memória e sentimos, num fechar de olhos, suas mãos abençoando nossas cabeças...



quinta-feira, 29 de julho de 2010

Foi-se o Zé


“Essa divisória que nos separa do mistério das coisas a que chamamos vida” (Victor Hugo)

O menino sapeca morreu. Aquele que arrastava o saquinho de pão na enxurrada em frente da igreja da Vila Cruz. Aquele que mesmo de castigo comia as bananas que a mãe tentava deixar amadurecer. Era meio parente de Pedro Malasartes... empurrava a irmã pequena na escada, colocava o dedinho dela no soquete que dava choque... Era o terror da rua...
Mas tinha o coração grande de ternura. Subia na jabuticabeira pra apanhar as frutas grandonas pra mim. Ele sabia que a prima gordinha não conseguia chegar nos galhos mais altos. Na brincadeira de pique-esconde sempre me mostrava um lugar mais difícil de ser encontrada naquele grande quintal cheio de pés de milho.
E nunca me deixou voltar pra casa sozinha dos bailes e festinhas... tomava conta da prima adolescente como se fosse a irmã.
O menino sapeca morreu. Mas deixou para a vida a Vanessa, a Jaqueline, o Diego, o Gustavo e o Bryan.
Uma pequena grande família para guardar a sua memória e descendência.
Ele foi sepultado junto aos seus. A mãe, o tio Zé, a tia Maria, o tio Paschoal, os avós e a pequena Bia. Muito bem acompanhado para não perder o caminho que nos faz chegar ao outro lado. Pra nós, a saudade. Pra ele, um recomeço.
E como diz o pequeno neto Gustavo: ‘o vovô Zé virou estrela e o vento levou ele lá pra cima’.
Então, toda noite estrelada vai ser momento de encontro a partir de agora.

domingo, 18 de julho de 2010

Saudade




O poeta Tagore diz que a fé é o pássaro que sente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura.
Eu sei que meu pai já viu a claridade do amanhecer de outro lugar e que sua fé o acompanhou na transmutação da vida. Só o que não sei é o que fazer com sua falta, com a saudade que não fica amenizada nem um pouco com o tempo que passa...

"Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenômeno
de uma sutil transformação.
A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser.
Aventura prolongada
desde o porão do tempo (...)

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida.
Nova utilidade.
Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo.
Novo ser-se e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na máquina incomparável do universo."
(Vida Sempre - Casimiro de Brito)






domingo, 11 de julho de 2010

Tenho saudade da minha infância (texto de Vânia A. Nicola de Ponti de Oliveira Brito)


Lembro-me quando era criança e morava com meus avós maternos Joana Facci e Maurilo Nicola em São Roque da Fartura, pequena comunidade depois da divisa de Poços de Caldas.
Mais que avós, eles foram meus pais. O tempo da infância na casa ao lado da bica d’água foi feliz, com direito a canequinha de alumínio para apanhar amora e chupar laranja-lima no pé.
Meu avô era bravo, carrancudo, mas o coração tinha gestos amorosos, como o de colocar capim na sala para o ‘burrinho’ do papai Noel e deixar lá um presente de Natal.
Eu era a princesa paparicada, talvez por ser a mais velha dos irmãos (Donizeti e Paulinho) e também a única neta, filha da única filha Terezinha.
Fiquei com a vó Joana até meus 10 anos, quando meus pais se mudaram para Vargem Grande do Sul. Naquele dia de despedidas ela chorou muito. Eu também.
Vô Maurilio era um homem muito bom. Numa época em que meu pai (Edson Lopes) viajava bastante, ficava meses fora de casa, ele e vó Joana foram a nossa base para nossa educação e formação.
Depois crescemos, mudamos para Poços, casamos, tivemos filhos. Mas vô e vó sempre foram referências.
Anos mais tarde, quando eles vinham nos visitar, principalmente na época de Finados, vó Joana trazia uma linda cesta de palmas que plantava especialmente para a ocasião. Enfeitava com carinho o túmulo dos pais dela (Angelo Facci e Adelia Rossi) no cemitério da saudade, que ainda visitamos e cuidamos. E meu avô, achando que a gente continuava criança, nunca se esquecia de trazer doces.
Hoje, aos 46 anos, família formada, me pego pensando nos bons tempos em que podia sentar no colo dos avós.
São tantas as lembranças boas deles que se fosse escrever todas daria um livro. E dos bonitos. Sinto muita saudade, mas ficaram as lembranças daquele tempo bem guardadas na memória e no coração.
Então, aproveito esse espaço que a Delma criou pra nossa família e deixo o meu carinho para meus pais, meus irmãos e, principalmente, meus queridos avós. Agradeço também a tia Idalina, que tanto nos ajudou quando mudamos pra cá. A Delma é uma pessoa muito querida pra mim, é minha amiga e minha prima. Quantas vezes saímos juntas e depois dormia na casa dela (lembra Delma?).
Temos, eu e meus irmãos, muito orgulho de pertencer aos Nicola e sermos netos do vô Maurilio. Eu e meu marido (Marcio) sempre ensinamos nossas meninas Jéssica e Mariana que não podemos esquecer nossas verdadeiras raízes.
E estamos aí para o que der e vier, esta frase é bem a minha cara mesmo. Estamos aí vida, vamos enfrentar todos os problemas de cabeça erguida! Abraços a todos!

"E amizade dada é amor." (Guimarães Rosa) Para o dia de anos do Daniel


"Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua no ar por oito segundos ou a menina abraça o seu grande amigo, nenhum jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem." (Rita Apoena)

Pois então, Dani, seu aniversário não está nos jornais, nem nos programas de rádio ou TV e nenhum mensageiro proclamou no meio da praça. Mas no "anonimato" do meu coração ele é anunciado sempre que leio um poema e desejo compartilhar com você. Portanto, aqui dentro do meu peito é seu aniversário todo dia.
Desejo oito segundos de pena flutuante toda vez que você ganhar um abraço de amigo.


sábado, 10 de julho de 2010

e il nome è... (e o nome é...)

igreja de Romprezzagno

De vez em quando os papéis antigos que encontramos nos pregam peças. Você tem certeza do que vai encontrar, desdobra sem nem pensar e.... surpresa!

Foi assim quando recebi a certidão de nascimento do meu nono Luigi Maiochi. Lá estava um Mario inesperado e completamente desconhecido. Virei pro meu pai: você sabia que seu pai chamava Mário? E ele me olhou, inocente: Não! Ele chamava Mário? Acho que ele também não sabia.

Tive que rir.

Agora, há menos de uma semana, o Francisco (primo Chico pros familiares) me vem com mais uma novidade. Olhando a certidão de óbito do nosso bisavô Amilcare, pai do Luigi-que-também-era-Mário, percebeu que havia uma anotação judicial corrigindo o registro. O Chico conseguiu desencavar o documento de batismo do bisnono e então soubemos seu verdadeiro nome, além do lugar correto de nascimento e os pais.

Ele nasceu em Romprezzagno, município de Tornata, província de Cremona, Lombardia, Itália, em 29 de janeiro de 1862 e foi batizado no dia 30 de janeiro de 1862. Seus pais Giuseppe Maiocchi e Rosa Galetti escolheram chamar o nosso bisnono de Amilcare Francesco Maria Maiocchi. E fizeram um pacto com o padre Bruno Frassi, da pequena igreja de San Francesco: nessuno saprà il nome del bambino (ninguém iria ficar sabendo o nome do menino)... nem ele.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

“Não há amor sem coragem” – a história com final feliz de Romeu e Julieta em São Roque

O domingo daquele mês de julho amanheceu frio e parecia até que tinha geado um pouco. Mas logo o sol tomou conta da paisagem e todos puderam desfrutar do dia de folga. Desde logo cedo o coração de Lúcia estava apertado e sua mente só pensava no que ia acontecer logo mais à tarde. Apesar de ter combinado tudo com o noivo Manoel, ainda ficava apreensiva de que alguma coisa não desse certo. Será que ele tinha falado com o motorista? Será que ela devia levar uma troca de roupa? Não, isso não. Poderia levantar suspeita e nem seu pai nem sua mãe podiam saber que os dois planejavam fugir para casar. E agora que eles tinham resolvido, o melhor era ficar calma e rezar pra que tudo desse certo. Aliás, era o que ela mais faria na missa das 5h... pedir a proteção de Nossa Senhora.
O dia passou lento e parecia que o sino da igreja não ia tocar nunca chamando os fiéis para a celebração. Finalmente, despediu-se da mãe e, com os olhos cheios d’água, tomou o rumo da igreja. Seu destino começava a ser selado...
Essa história real, que eu pintei com algumas cores imaginárias, pertence ao coração da minha prima Lúcia Nicola e de seu esposo (já falecido) Manoel Esteves. Eles moravam em São Roque da Fartura quando se conheceram e se gostaram. Namoraram durante oito anos, faziam planos de casamento, até já tinham comprado alguns móveis.
Mas alguns empecilhos familiares impediam que os dois concretizassem o sonho do matrimônio. Assim, foram deixando os anos passarem até que sentiram que não dava mais para esperar. Planejaram fugir para se casar em Águas da Prata e o fizeram naquele domingo depois da missa. Tinham certeza do amor que os unia, porque era uma decisão sem volta. Uma vez que o pequeno povoado descobrisse a fuga seria um escândalo se não oficializassem a união. Chegando a Águas da Prata, hospedaram-se no hotel São Paulo e se prepararam para a noite mais longa de suas vidas. Estavam sozinhos, mas era como se não estivessem... os olhares dos pais assombravam as paredes do pequeno quarto e os deixava inquietos. O amanhecer os encontrou de olhos abertos, cansados de andar de um canto a outro, de espiar a janela pra ver se alguém chegava pra buscá-los. E vieram. O pai dela e o pai dele tinham ido cumprir a última parte do ritual de fuga: acompanhar os dois até o cartório e assinar o documento que finalmente os libertaria do eterno namoro e os tornaria unidos para sempre.
E assim foi... 1º de agosto de 1967... Lúcia e Manoel desenharam suas assinaturas com mãos trêmulas naquele livro de registro que também guardava outras histórias como a deles. E, diferentes de Romeu e Julieta de Shakespeare, viveram felizes enquanto puderam.
Assim, eu chego à conclusão que a família Nicola pode não ter certeza de seu sobrenome, mas de coragem para viver amor e romance... ah... disso entendemos muito bem.

terça-feira, 6 de julho de 2010

buona notizie


O assunto foge um pouco do propósito do blog... mas acho importante registrar os acontecimentos das nossas famílias, mesmo aqueles recentes. Aliás, deixo o convite: quem tiver alguma notícia e quer que seja postada aqui, mande... vai ser muito bom repartir o que acontece conosco, alegre ou triste.
Mas o post de hoje é muito alegre... a Leila passou no vestibular pra enfermagem na Puc. Essa minha prima tão batalhadora, que tem dois filhos na faculdade, resolveu que era tempo de contribuir com ela mesma e aprender algo que a faz feliz.
Muito bem Leila, os bisnonnos, com certeza, iriam se alegrar. Avanti pima... vamos conquistar os diplomas e as cátedras.
PS: agora, cá pra nós... a leila tá muito inteligente ou a puc tá ruim de vestibular...hahahaha...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Maiochi camisa vermelha


Giuseppe Garibaldi, o guerrilheiro italiano, ficou conhecido como o “herói de dois mundos” por sua atuação em conflitos na Europa e América do Sul. Em 1860, ele iniciou a Expedição dos Mil (Spedizione dei Mille), em busca de libertar o sul da Itália e reunificar o país. Ele não é da nossa família (pelo menos até onde sabemos), mas está sendo citado neste blog porque, entre os camisas vermelhas (camice rosse) que lutaram na Sicília com Garibaldi estava Achille Maiocchi, nascido em Milão, filho de Giovanni Maiocchi. Além de representantes das famílias Mapelli, Basso, Piva e Zanetti, nomes conhecidos por aqui na convivência nas fazendas. O revolucionário Garibaldi, que dedicou sua vida ao combate à tirania, conseguiu atrair esse nosso remoto parente para suas ideias libertárias, colocando nos registros da História o sobrenome que os bisavós trouxeram com tanto orgulho para o Brasil.
A lista, com 1.089 pessoas, fornecida pelo Ministério da Guerra italiano, foi publicada no "Giornale Militare" em 1864, como resultado de um inquérito do Comitê Estadual, que queria determinar, através de provas e testemunhas, os nomes dos voluntários que realmente desembarcaram em Marsala (Sicilia) em 11 de maio de 1860. Confira a lista no http://italiangenealogy.tardio.com/News/article/sid=25.html
A foto é de um dos camisas vermelhas, Giuseppe Barboglio, que usa uma rara medalha de Marsala (ou dos mil). O Maiocchi, nosso antepassado, provavelmente se vestia da mesma maneira.

domingo, 4 de julho de 2010

felice cumpleanno

Tia Maria ainda te abraça...


Deixo registrado, com muito carinho, o aniversário do meu primo-irmão-companheiro-camarada Francisco, nascido Braido, mas com sangue e coração de Passoni, Cancian, Maiochi, Malinverno e quem sabe (ainda estou investigando) Nicola-De Ponti. O Chico é uma dessas pessoas fantásticas que acontecem na vida da gente. Ele não é apenas meu parente, ele é meu amigo... daqueles cujo ombro comporta a minha cabeça, as minhas alegrias e tristezas. É nos olhos dele que eu vejo a minha felicidade quando descubro alguma pista dos antepassados, alguma foto que eu queria tanto, o documento velho escondido no cartório lá da bella Itália.
Portanto, Chico, eu, egoisticamente, desejo que você viva muito, com saúde e resistência... pra que possa continuar me suportando e pra que eu continue te amando.
Tudo de bom ainda é pouco do que eu peço à Divindade que te proporcione.
Um beijo. Delma



quarta-feira, 23 de junho de 2010

De Angela para Annita e vice-versa... as jabuticabas no avental (texto de Francisco Braido)

Talvez o que mais havia entre as famílias imigrantes era a cooperação e o respeito entre elas. Tudo devido à mesma história de separação entre a terra natal e a outra que escolheram para viver, sem falar na vida de muito trabalho.
Quem me contou esta passagem foi Nair, uma das filhas de Annita Loro, imigrante que chegou ao Brasil em 3 de março de 1897. Annita era vizinha de minha bisavó Angela Da Re, na Vila Cruz, lá pelos anos 1950-60. A bisa morava na casa de esquina da rua Champagnat. Annita do outro lado da mesma rua.
Ela conta: "Eu estava grávida do Lourival e na casa da frente tinha um pé de jabuticaba. As italianas usavam aquele vestido comprido e sempre um avental. A dona Angelina fez do avental uma sacolinha e foi me levar jabuticabas. Ela me disse que estando eu grávida não poderia ficar com vontade e que a criança tinha que nascer bem".
Gentileza feita, a bisavó retornou para casa. Mas, no meio do caminho tinha uma pedra (como dizia Drummond) e ela caiu na rua. Annita rapidamente foi ao seu socorro, ajudou-a a levantar e foi com ela até a casa. Tão gentil como o fora Angela minutos antes. Duas mulheres se socorrendo, apesar das diferentes situações.
São os episódios da vida, simples, mas que demonstram pequenas gentilezas com o próximo, tão raras hoje em dia.
É bom lembrar da bisavó Angela assim, generosa e prestativa, carregando jabuticabas no avental...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Família Braido: “filius di Vittorio” (texto de Francisco Braido)

brasão da cidade de Vittorio Veneto

Caro leitor, se você não entendeu e estranhou o título não se preocupe. Quando se inicia um trabalho de pesquisa sobre família, muitas coisas jamais serão entendidas, e devemos somente aceitá-las. Faz parte da história de cada familiar que nunca iremos ou poderemos mudar.
Depois de ler estas linhas, creio que entenderão o título.
Desde 1994 que busco referências sobre meus ascendentes Braido e, entre encontros e desencontros, posso dizer que estou na estaca zero. Porém, entendo que estou no caminho certo, mesmo passados mais de 16 anos de busca.
Quando iniciei a pesquisa, a primeira coisa foi buscar naquela velha caixa de documentos, no guarda-roupa, os "papéis velhos". Isso mesmo, muitos se referem aos documentos como simples papéis. Lá encontrei certidões com as primeiras informações, avós e bisavós. O segundo passo foi procurar a nona, e não é que a coisa fluiu? Pelo menos com um dos ramos de minha família. Quantas saudades da vó Maria Maiochi!
Bem, voltando aos Braidos, sobre eles quase nada, apenas alguns nomes - Jácomo, Francisco e Magdalena. Algum tempo depois apareceram João, Bepe, Maria, Ana (difícil tradução no documento que descrevia uma tal de Ometa), Catarina e outro João.
Procurei meus tios para contarem o que sabiam. Fui agraciado com uma foto amarelada, lá estavam o bisavô Francesco, com o bigode do típico italiano e o chapéu, sua esposa Magdalena e um dos filhos (tio Bepe, nas palavras da minha tia) com a mulher Angela. Quem me deu esta foto já não está mais aqui, e talvez fosse a única pessoa que poderia me ajudar neste quebra-cabeça.
Não satisfeito, fui procurar mais informações na internet. Naquela época, somente alguns sites de buscas, ainda não havia o "são Google". Verifiquei que muitos Braidos eram originários da cidade de Vittorio Veneto. Pensei que o caminho estivesse correto, já que esta cidade pertence à província de Treviso. Este nome já aparecia no documento de óbito do Francisco. No da Magdalena era província de Udine.
No próximo passo fiz um simples cálculo para descobrir uma data provável de nascimento e uma carta dirigida à prefeitura daquele município. Demorou, mas a resposta chegou. Não encontraram nenhum Francesco Braido em Vittorio Veneto.
Busquei novos horizontes de pesquisa, fui até São João da Boa Vista, cidade vizinha no interior paulista. Meu avô Jácomo nasceu lá. Mais de 10 livros de registros sobre a mesa me esperando, passei a tarde na Delegacia Seccional. Encontrei alguns integrantes da família Braido, assim como de outras conhecidas, mas nada que ajudasse. Outras cidades apareceram como referência, tais como Susegana, Codognè, Godega di Sant´Urbano, Treviso, Colle Umberto e tantas outras. Escrevi, e como sempre as respostas voltaram negativas.
Bom, então parti para outra família, os Passoni. Mais surpresas. Se um determinado Carlo Passoni, ao chegar ao Brasil, virou José, e se a família De Ponte virou Nicola, porque o senhor Francesco não poderia ter trocado de nome?
Eu já tinha listas de desembarque de vários Braidos, relacionei todos. O que mais se aproximava daqueles que eu procurava era um Pacífico Braido. Não dei a devida atenção a este imigrante, seria somente mais um registro?
Conversando com minha prima Delma, tomando um café lá no Sá Rosa (é sagrado este bendito ou maldito café), sempre com papel, caneta e calculadora na mão, fui alertado. Pode ser esse quem eu há tanto tempo procuro.
Como não tinha muitos dados, pesquisei os casamentos em determinado período. Não é que encontrei o matrimônio de uma Braido, filha do Francisco? Mas seria Francisco ou Pacífico? Ainda não sei... porém havia uma referência importante. Obviamente, o sobrenome estava errado, me deparei com uma Braz e não Braido. Grafia errada, mas pequena, perto do que já encontrei por aí. O que eu procurava estava lá. Animado, investi novamente.
Não tenho uma resposta definitiva ainda sobre a cidade de origem de minha família, ou mesmo sobre minha família, mas estou chegando lá.
De Francisco para Pacífico é um pulo. Se for, posso encerrar este pequeno e "trabalhoso ofício" certo que somos fiilius di Vittorio, ou se preferirem, num tom abrasileirado, os filhos de Vittorio Veneto.
É um mérito ser filho de Vittorio? Não, o mérito é encontrar suas raízes e respeitar aqueles que saíram de sua pátria para fazer em outra nação sua vida. Construir a outra história, a nossa história!

sábado, 19 de junho de 2010

nome, cognome, soprannome, tutti pari...(nome, sobrenome, apelido, tudo igual)


Umas das coisas mais engraçadas (e interessantes) deste meu andar em busca dos antepassados é conseguir decifrar o que está escrito nos registros da igreja, do cemitério e do cartório civil. Acostumada ao conforto dos documentos digitados, demorei para me familiarizar com a escrita quase rabiscada desses livros antigos. Algumas vezes, confesso, me deu vontade de chorar diante do inexplicável emaranhado de letras e em outras ocasiões ri muito do jeito com que foram grafados os nomes e localidades. Fico imaginando os bisavós chegando na igreja pra registrar o filho ou casar a filha. Era uma luta. De um lado o italiano semianalfabeto, mais acostumado com a enxada do que com a caneta, falando com sotaques e acentos uma língua toda própria. Do outro lado, o funcionário do cartório, o padre ou sacristão, que escrevia do jeito que escutava e nem sempre com 100% de boa vontade. O resultado é o que tento entender quando me debruço sobre o livro à procura do mistério da minha origem: letra bordada e nome desalinhado.
Eu e o Chico (Francisco Braido, pra quem não conhece), meu primo e companheiro nas desventuras genealógicas, anotamos algumas dessas discrepâncias.
Amilcare – Amilcar, Amilcarle, Amicare e, pasmem, Miguel
Maiocchi – Maichi, Maioqui, Manhocchi, Marrochi, Mayochi
Anna – Anita, Annita, Aneta, Ometa
Sacile – Satile, Sachire, Chachile, Cecile, Cecilia, Catile
Da Re – Daré, Dal Re, Del Re, Daret, De Ré, Dare
Braido – Braida, Braite, Bras, Braz, Braide, Brait
Dotta - Dota, Dotto, Dotti, Doto, Doti
Passoni – Passone, Passon, Passomi, Passoli, Pessoni, Passali, Bassoni
Malinverno – Malinverni, Maniverno, Malinberni,
Migot – Mingoit, Migott, Mingoiti
Pizzol – Pisol, Pizzola, Pisolo, Pizzoli
Zucato – Zocatto, Sucato
Móras – Moraes, Morais, Morás, Moro
Lappi – Lapis, Lape, Lapi
Cancian – Canciano, Canziano, Canzian, Cassiano, Cantiani, Cantiane, Alcanziani, Kanssian, Canssian
Taffarelli - Tafarel, Tafarelo, Tafareli, Taffarello
Giuseppina – Juseppina, Giusephina
Maddalena – Magdalena, Madalena, Maddalenna
Marrafon – Marrafão
Zanetti – Zanette, Zaneti, Zanethi, Zante
Bruschi - Brusque
Colombo – Colomba, Colombi
Baron - Baroni, Barroso
Giusepina - Jiusephina, Pina

quinta-feira, 10 de junho de 2010

o nome dela começa com L

A sapecagem das crianças ultrapassa todas as explicações psicológicas. Por que fazer uma arte sabendo que vai apanhar? Ainda mais quando o castigo viria através de uma mão grande e pesada como a do meu avô Bidin Maiochi. Mas não era assim que pensava a pequena menina de cabelos castanhos que morava naquela casa da Vila Cruz. Para ela, que nunca parou quieta, o que viria depois da brincadeira não importava muito. O interessante era ver o nono enfezado. Há dias ela esperava uma ocasião para colocar mais um plano em ação. Durante as tardes, o nono e dois de seus irmãos, Bepe e Carlo, sentavam-se num degrau da porta da sala da casa para conversarem. Ficavam lá bastante tempo, lembrando e rindo de coisas que nunca saberemos. Naquele dia tudo deu certo para as maquinações da menina: o pai não estava, a mãe cozinhava atarefada, o irmão mais velho tinha ido buscar qualquer coisa que o nono tinha pedido, o mais novo dormia quietinho no berço. Tudo perfeito. Pegou um copo cheio de água e deixou o líquido escorregar por debaixo da porta bem devagar... não esperou pra ver, mas escutou os xingamentos dos três velhos que se levantaram depressa com os fundilhos das calças molhados...

a flor no guidão da bicicleta


Minha tia Lourdes nasceu na fazenda Santa Alina, numa casa com duas portas de frente pra rua. Era assim porque tinha sido construída para ser geminada, mas como a família Nicola era grande ocupava todos os cômodos. Minha mãe me conta que quando a tia era pequena costumava perder o fôlego ao chorar, chegando a ficar roxa. Tia Maria, a irmã mais velha, não sabia o que fazer pra acudir a criança e minha mãe corria pra se esconder, de medo de ver a pequena irmã morrer. Mas, apesar de tudo, tia Lourdes cresceu e se tornou uma moça muito bonita. Era do tipo “mignon”, mas esbelta e com rosto suave e delicado. Na juventude era alvo dos não muito discretos olhares dos moços da fazenda. Mas os seus olhos queriam mesmo era encontrar os de um dos irmãos Maiochi, família que morava um pouco à frente, na curva da estrada que levava ao campo de futebol. O coração batia confuso quando o via chegando da lida de tardinha. E o rapaz também se sentia atraído por aquela moça na janela. Durante muito tempo os sentimentos ficaram guardados, escapando apenas na troca de olhares, nas danças de bailes e nas poucas palavras trocadas. Mas o futuro os dois já sabiam... um dia ela estaria vestida de noiva e ele a esperaria no altar da igreja.
Neste texto tem um bocado da minha imaginação, mas eu o construí ouvindo o tio Roque me falar da tia Lourdes em várias ocasiões. E ele sempre me diz que sentia, lá no seu coração, que os dois iriam se casar. E quando eu perguntei de onde vinha tanta certeza ele confessou: eu sabia desde o dia em que encontrei uma flor que ela colocou no guidão da minha bicicleta...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

sacerdote da vida


Ele tinha a chave da pequena igreja de São José da fazenda Santo Aleixo. Cuidava dos paramentos e objetos litúrgicos com a mesma devoção que um sacerdote o faria. Sua missão mais importante no pequeno povoado de imigrantes era celebrar os ofícios fúnebres. “Libera me Domine, de morte aeterna”, cantava com sua voz forte, encerrando a triste tarefa de ajudar no sepultamento de alguém da colônia. Luigi Da Re chegou ao Brasil em 26 de novembro de 1897 com a esposa Santa Zanetti, a mãe Angela Coure e as filhas Marina, Angela, Giovanna, Elvira e Maria. Veio de Udine, na região vêneta, e tinha 38 anos ao desembarcar. Agricultor, seu destino não poderia ser outro que uma das tantas fazendas que necessitavam de mão-de-obra para ainda substituir os escravos. Esse meu bisavô paterno, magro e não muito alto, de alma e gestos piedosos, plantou aqui a sua descendência. Viveu sua vida longe do lugar onde nasceu, manteve a sobrevivência da família, gerou outros filhos, viu milhares de pés de café serem transmutados de semente a fruto seco no terreiro. E, em meio à dura lida da agricultura, foi generoso com as pessoas até em seus derradeiros momentos nesta existência. Amparou, com suas orações e cantos, a alma que buscava a luz e contribuiu para diminuir a dor de quem ainda ficava. Luigi, o nono piadera, é o nosso exemplo mais claro de compaixão e doação. Desejo muito que alguém tenha cantado e rezado no dia de sua morte, mas tenho certeza que ele encontrou, lá nos campos do céu, todos aqueles a quem ajudou na travessia.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Dia especial




O dia amanheceu agitado na casa dos Maiochi na fazenda Água Limpa. Luigi e Angela iam fazer compras na cidade. Os filhos sabiam que isso significava que além da possibilidade de uma roupa nova ainda se podia tirar fotografia. Sim, é isso mesmo... as Casas Pernambucanas, que naquele tempo ainda ficava na Assis quase esquina da Francisco Salles, tinha essa promoção: por um certo valor comprado ganhava-se uma foto (posada, daquelas de estúdio, bem bacanas). A tia Antonia me contou que se o nono fizesse uma compra maior eles ganhavam até três fotos. Era ou não era um dia especial? Visitar a cidade, ir nas Pernambucanas, tirar fotografia e, quem sabe, comer alguma coisa diferente... muita sorte num dia só. Quanta alegria em acontecimentos tão singelos...
E naquele dia de 1940, as contempladas com o brinde fotográfico foram as irmãs Antonia (15 anos), Maria (24 anos) e Palmira (17 anos). O resultado foi uma linda imagem das moças da fazenda de corações alvoroçados. Hoje, 60 anos depois daquela tarde especial, é o meu coração que se enternece ao olhar a foto e perceber que a felicidade pode morar em episódios tão modestos.

gioco delle boche


Lá, em 1880, os italianos "começaram a invadir" o Brasil. Junto com eles vieram inúmeras tradições culturais, em especial o jogo de bocha (gioco delle bocce), que era praticado durante a viagem, nos navios, quando era possível. Na zona rural, onde minha família se estabeleceu, era comum encontrar locais destinados a essa diversão. Meu tio Afonso Maiochi me deu duas fotos que ilustram bem como os imigrantes gostavam desse esporte. E ele me contou que durante uns cinco anos diversas famílias italianas e espanholas (Maiochi, Vasques, Toron, Galha, Reche), entre outras, utilizaram o campo de bocha do sítio Campo Redondo, de propriedade de Joaquim Vasques, perto da fazenda Santa Alina. As tardes de domingo eram reservadas para as disputas de bocha e os homens se divertiam, esquecendo a lida dura da semana nas plantações de café. O campo, cuidado por José Pacetti, era o único da redondeza e atraía também as moças e os sanfoneiros, fazendo a tarde ficar mais alegre com música e dança (e com os olhares compridos trocados entre os futuros pretendentes). O tio, olhando a foto com saudade, disse que uma bela paineira sombreava parte do campo e refrescava os ânimos durante as competições mais acirradas. Eu fico imaginando o tanto que eles discutiam. Italianos e espanhóis juntos devia dar uma bela confusão de palavrões e insultos. Nada que não se resolvesse com um aperto de mão no fim da tarde de disputas, mas que um achava que jogava melhor que o outro... ah, isso com certeza. Faz parte de suas almas a personalidade forte herdada de seus antepassados conquistadores.
Nesta foto de 1950 o tio falou que reconhece José Saqueli, José Pacetti, Geninho Reche, ele mesmo, João Maiochi (tio Joanin), Salvador Toron, João Piva, João Moreno e Dito Lopes.

terça-feira, 25 de maio de 2010

jersôô...


“Jersôô, conta uma piada pra gente?”
“Jersôô, passeia com a gente na lambreta?”
“Jersôô, vamo sentá na mureta da casa da tia Tonha pra conversar?”
E assim iam se repetindo os pedidos e aquele primo grandão, pacientemente, satisfazia todos. Essas lembranças são de quando eu tinha uns 12-13 anos de idade... ele, mais de 20. Parecia um moleque brincando com os primos menores. E como havia primos, de todos os tamanhos e idades, cada um mais levado que o outro. A travessa Pedro de Castro Souza (nunca esqueci esse nome) ficava pequena pra tanta criança. Espaço lúdico de minha infância. Hoje já não tem mais graça... a tia Antonia mudou de lá, tia Maria foi conferir se no céu podia jogar baralho... os primos cresceram, mudaram, casaram. O Jérson foi andar de lambreta em outras paragens... nos deixou órfãos de seu afeto. Que eu me lembre, ele foi um dos poucos adultos da família que gostava da companhia das crianças, que perdia tempo nos dando atenção. Sua presença contribuiu para que eu crescesse entendendo o valor de estar junto.
“Jersôô, conserta meu radinho?”
“Conserto.”
“Mas Jerson, o dial ficou errado... quando eu giro pra esquerda vai pra direita, quando eu giro pra direita vai pra esquerda...”
“E não ficou mais legal assim? Ninguém tem um rádio desse jeito. E nem vou cobrar a mais por isso, tá?”
Não acreditam? O rádio ainda está comigo...

sábado, 22 de maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A família que mudou de sobrenome ou como viramos Nicola



...C'era una volta...

Era uma vez uma família de imigrantes italianos que desembarcou no porto de Santos em 24 de março de 1887. Chamavam-se Luigi (chefe), Madalena (esposa), Rosa (filha), Gioachino (filho) e Ângelo (filho). O sobrenome? De Ponti.
Depois da estadia na hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, seguiram para Casa Branca-SP, onde deram início à dura batalha para a subsistência num lugar tão diferente do de origem. Instalaram-se em uma das fazendas da região e tentaram se adaptar à nova realidade. Assim como outros “stranieri”, eles casaram, povoaram, festejaram, batizaram as crianças, morreram...
Mas essa família tem uma peculiaridade: seus integrantes mudaram o sobrenome após a chegada ao Brasil... todos eles.
Em 1892 registraram o primeiro filho brasileiro: Ernesto de Ponti.
Em 1900 casaram a filha Rosa de Ponti (com Vicente Passoni).
Em 1905... transformaram-se em Nicola.
E assim, no meio desse mistério “nominal“, nascemos nós, os Nicola... do Sebastião, da Idalina, do Luiz, da Nega, do Natal, do Maurílio, da Maria, da Olga, da Lourdes, do Antonio........
Meu bisavô Luigi nasceu e chegou ao Brasil de Ponti e morreu Luiz da Ponte Nicola, conforme registro no cemitério de Poços.
Meu avô Ernesto nasceu de Ponti, casou e morreu Nicola.
A minha tia-avó Rosa nasceu de Ponti, casou de Ponti, enviuvou e morreu Nicola.
Meu tio-avô João (da Ponte) nasceu provavelmente Gioachino de Ponti, casou e morreu Nicola.
E meu tio-avô Angelo nós nem sequer soubemos quem foi, a que veio, quando morreu ou o que fez.
É isso.... Nossa história, que tem muitos causos, até de quase-homicídio e suicídio (mas muitas alegrias também), se resume nesse básico-complicado... nascemos assim e viramos assados. Ficamos desnicolados. Mas, eu sou brasileira, não desisto nunca... ainda vou descobrir o que houve.
Aguardem um próximo capítulo......
PS: coloquei uma foto do tio Zé Nicola porque não tenho nenhuma dos avós e bisavós De Ponti-Nicola, nem encontrei parente que tivesse. Então, como ele é o mais velho...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Família Passoni e as desventuras no vapor Poitou (texto de Francisco Braido)


Embarcados em Gênova, meus antepassados Antonio, Pasquale e Paolo Passoni chegaram ao Brasil em 20 de fevereiro de 1888. Provenientes dos arredores de Milano, a composição familiar desembarcou em Santos com 24 membros, depois de uma viagem de cerca de 20 dias no vapor Poitou.
Com certeza, todos sonhavam com uma “Mérica” linda e cheia de oportunidades. Mal sabiam que as dificuldades estavam apenas começando e a primeira delas foi a viagem na “aconchegante e luxuosa” embarcação. Quem descreveu o percurso sobre o mesmo vapor francês foi um integrante da família Pozzebon.
Transcrevo um fragmento do texto: “Os passageiros engoliam os maus tratos e calavam. O alimento insuficiente e mal conservado era mais do que repugnante: aquele pó de café abominável, a água turva. A carne (à época, não existiam frigoríficos) em grande parte deteriorada e fedorenta. A água intragável era conservada num caixão de chumbo, de modo que estava impregnada com aquele metal e não se a tomava a copos, mas com canudinhos de chumbo. Coisa nauseabunda! Desse modo, a maioria, para não sugar as imundícies existentes no recipiente, colocava o lenço para servir de filtro. Se não fosse verdade, pareceria impossível. Muita sede sofria os inúmeros emigrantes por se recusarem a sorver aquele caldo asqueroso”.
O grupo de 24 pessoas da família Passoni certamente esteve nessa difícil situação. E tudo acrescido da incerteza sobre o futuro na nova terra e da saudade dos que deixavam. Mas desistência não fazia parte do vocabulário daqueles imigrantes fortes e trabalhadores...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Luigi e Angela



Os dois vieram da Itália. Ele chegou ao Brasil com menos de dois anos. Ela tinha três. Ele nasceu em Calvatone, província de Cremona, em 1894. Seus pais Amilcare e Annita atravessaram o oceano no navio Alacritá e aportaram em Santos em 1896. Ela nasceu em Sacile, província de Pordenone, em 1891. Seu pais Luigi e Santa trouxeram a família no navio Washington e desembarcaram em 1897.
Ainda crianças, os dois foram levados para a fazenda Aleixo, zona rural de Poços de Caldas, onde as famílias se estabeleceram como lavradores.
Cresceram em meio aos outros tantos italianos, ouvindo os dialetos e a linguagem mineira, numa mistura de palavras e sentidos. Até que um dia Mário Luigi Maiocchi resolveu que ia se casar com Angela Da Re, pois afinal estava na hora de constituir família, e ela era tão bonita...! Era 1915. Deixaram plantados por aqui, além dos incontáveis pés de café, 11 filhos (seis meninos e cinco meninas). Suas histórias são simples como as dos casais de antigamente: a união seria para o sempre da vida. Tudo o que prometeram ao sacerdote no dia do casamento foi cumprido à risca - fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença (fedele sempre, nella gioia e nel dolore, nella salute e nella malattia).

E assim aconteceu.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Cruzando o Atlântico (texto de Francisco Braido)

"Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arrivá" (canção do folclore italiano)

O vapor San Gottardo foi construído por G. Ansaldo & Co, Sampierdarena em 1884 para Dufour & Bruzzo, Gênova. Ele tinha 2.532 toneladas, dois mastros e fazia uma velocidade de 10 nós. Havia acomodação para 30 passageiros de 1ª classe e 1.290 passageiros de 3ª classe. Lançado em maio de 1884, deixou Gênova rumo ao Brasil e à Argentina no mesmo mês. Entre os numerosos ocupantes da 3ª classe estavam integrantes da família Braido, que desembarcaram nos portos de Santos e Rio de Janeiro.
Uma viagem de navio naquela época era uma empreitada dura. As condições dos navios eram precárias, o calor, o excesso de passageiros e as condições de higiene favoreciam o aumento de doenças. Aos emigrantes era destinada a cuccetta - espaço muito estreito - uma espécie de dormitório coletivo. Nele havia beliches com colchões de crina, travesseiros e cobertores de lã, que muitas vezes tinha parasitas e piolhos. Mas nem tudo era sofrimento. Festas e jogos animavam os passageiros e os ajudavam a suportar as dificuldades. Assim, depois de 20 a 30 dias de viagem, chegavam ao Brasil, onde se iniciava outra viagem, dessa vez rumo ao futuro incerto das cidades e fazendas.

"Benditas sejam as mãos que tecem os fios da vida"


Essas linhas são de um poema de Alencar Medeiros. Penso que as palavras combinam bem com as mãos da minha bisavó Sophia Passoni. Não, eu nunca vi as mãos da minha bisavó, a não ser em fotos. Mas eu sei que elas deslizaram inúmeras vezes nesta máquina de costura, indo e voltando na dança do coser, sua cabeça (já branca talvez) se debruçando sobre os tecidos que depois vestiriam sua família.
Segundo a história, a máquina de costura começou a ser comercializada a partir de 1830 na França. Minha bisavó Sophia provavelmente nunca soube disso, mas entendia muito bem de pedalar a sua Dietrich Vesta, de fabricação alemã, da empresa L.O.Dietrich & Co. Fundada em 1871, produziu máquinas de costura até a Segunda Guerra Mundial, quando foi transformada em fábrica de armas. A bisa vestia a família costurando nesta relíquia, que, felizmente, conseguiu ser resgatada e hoje mora na casa da Dulce.
Será que alguém tem uma peça costurada por ela??

pai





José... um nome simples mas que conteve um homem tão grande.

Meu pai foi uma das inspirações para que eu começasse a me interessar pelas lembranças de família. Dentre tantas recordações de infância uma delas é ele brincando comigo com palavras em italiano. Aí contava que era assim ou assado que seu pai dizia certas coisas, que sua mãe rezava na língua pátria todos os dias, em especial no mês de maio, quando então todos da família se reuniam à noite pra saudar a Mãe do céu... Ave Maria piena di grazia... e ia me contando, falava da nona com tanto carinho.
Pois assim todas as palavras desse blog serão em sua memória, que não deixarei que se apague...



Sua bênção, pai!!